José Pereira Peixoto Filho (1)
Carolina Rezende de Souza (2)
Estudar a Educação de Jovens e Adultos é conhecer um mundo, cujos indivíduos, por diferentes razões foram excluídos do mundo da escola. Um mundo sempre relegado ao segundo plano. Tais questões são reforçadas pelo fato de ainda vivermos em um país, que, do ponto de vista cultural, apresenta posicionamentos elitistas, imensamente arraigados no imaginário social. Daí a indiferença às manifestações das classes populares (CID LOPES, 2004), especificamente em relação aos sujeitos da EJA. Assim, vários estereótipos e estigmas impedem a devida compreensão de seus processos de ensino e aprendizagem (PEIXOTO FILHO, 1994; CAVACO, 2002). Neste sentido, o trabalho com educandos e educandas da Educação de Jovens e Adultos, necessita levar em conta, construções didático-pedagógicas, que se operacionalizem na realidade dos atores sociais envolvidos e nas diferentes formas com as quais esses sujeitos constroem e reconstroem cotidianamente suas leituras, releituras de mundo e, consequentemente, seus saberes e memórias.
Neste contexto, as práticas pedagógicas destinadas a estes atores sociais devem ter como referência as valiosas contribuições de educadores como Paulo Freire, a partir de seus pressupostos teóricos e metodológicos. Segundo Paulo Freire (1989), os diferentes grupos sociais realizam leituras e releituras de seu mundo e da vida constituídos pela natureza, pelos objetos e por outros seres, que os cercam revelando significados, modos da sua vida e estratégias de sobrevivência. Para ele, a leitura de mundo pressupõe processos, que envolvem a interação criativa, capaz de proporcionar aprendizados, um estar no mundo e um participar da vida.
Essas percepções de Freire encontram-se em sua obra A Importância do Ato de Ler. Nesta obra, o autor menciona a casa onde nasceu em Recife, as árvores, o quintal, a natureza, os animais, os textos e palavras desses contextos vivenciados por ele na infância, os quais foram constituindo sua leitura de mundo. Ao mesmo tempo, este contexto encarnava em uma série de coisas, objetos e sinais nas suas diferentes formas visuais, auditivas e olfativas. Paulo Freire (1989) considera, então, que os educadores devem valorizar as diferentes formas de leitura de mundo que os grupos populares realizam. Essas leituras dizem respeito a um contexto local e global e às diferentes formas de explicação do mundo, compreensão de sua própria presença nele e dos seus saberes sobre ele, os quais são oriundos da experiência. Leituras de mundo, que devem permitir aos educandos uma leitura crítica destas realidades e, consequentemente, dos textos, opondo-se a visões mágicas e ingênuas destes processos (FREIRE, 1989). No ato de ensinar segundo Paulo Freire (1999) é fundamental, por parte dos educadores e educadoras, o respeito aos diferentes saberes dos educandos relacionados às suas leituras, construídas socialmente, que devem funcionar como ponto de partida para a elaboração dos conteúdos a serem construídos, em uma perspectiva dialógica e problematizadora, por meio da pedagogia da pergunta, que possibilite a leitura crítica da realidade, tendo em vista movimentos, que favoreçam aos educandos, a humanização, a emancipação e, assim, a transformação de seus contextos históricos e socioculturais.
Na perspectiva deste educador, os conteúdos de ensino são resultados de uma postura dialógica, que deve partir das leituras de mundo dos educandos e educandas envolvidos nos processos educativos. As práticas pedagógicas não devem ser pensadas como mera transmissão e memorização de conteúdos, descontextualizadas da realidade social destes e destas, que as vinculam a uma educação do tipo educação bancária. As práticas pedagógicas e os processos pedagógicos não devem ser vistos como mecânicos, onde o saber do professor se sobrepõe aos saberes dos educandos e educandas, mas deve preconizar, nestes contextos, sobretudo, o diálogo.
Os educadores e educadoras devem promover atos cognoscentes, que promovam o surgimento de nova percepção e o desenvolvimento de novo conhecimento, momento em que mulheres e homens são valorizados enquanto sujeitos produtores de cultura e história, como nos ensina Paulo Freire (1999), a partir da perspectiva do diálogo e da problematização. Mais do que isto, os processos educativos devem promover engajamentos nos quais os sujeitos, em uma perspectiva de interação, passam a descobrir o sentido das coisas e tornam-se capazes de atuar sobre a realidade, transformando-a e, cada vez mais, aprofundando suas descobertas, produzindo, cotidianamente e continuamente, história e cultura (FREIRE, 1999). Desta forma, os processos educativos e pedagógicos devem permitir aos homens e às mulheres, tendo em vista a perspectiva do diálogo, da problematização e de suas práxis, a interação com seus mundos e com as suas realidades, a partir de uma postura engajada, que os permitam atuar sobre ela.
Inspirado nesta perspectiva teórica e metodológica e, consequentemente no importante legado deixado por Paulo Freire, Francisco Régis Lopes Ramos (2008), um pesquisador e educador contemporâneo, traz à baila, a noção de objeto gerador, um conceito com valiosas contribuições teórico-metodológicos às práticas pedagógicas desenvolvidas no universo da Educação de Jovens e Adultos, no que concerne ao desafio da potencialização das leituras de mundo, saberes e memórias destes atores sociais. Ramos (2008) nesta perspectiva, inspirando-se na noção de tema gerador de Paulo Freire, especificamente no âmbito do Ensino de História e da Educação patrimonial e museológica, enfatiza a importância de professores, bem como outros profissionais, seja na sala de aula, no universo dos museus ou outros contextos educativos, utilizarem em suas práticas pedagógicas, o trabalho com os chamados objetos geradores que, tal como a seleção vocabular de Paulo Freire, devem ser selecionados a partir da realidade cotidiana e vivida dos educandos e educandas, ou seja, devem ser significativos no contexto das trajetórias e histórias destes atores sociais. Para este autor, o trabalho com o objeto gerador “parte de exercícios que enfocam a experiência cotidiana e insere-se, portanto, na pedagogia da provocação” (p.34). Enfim, na mesma perspectiva adotada por Paulo Freire(2000) que enfatiza que o debate de situações-problema é gerado a partir das próprias situações existenciais dos diferentes atores sociais envolvidos nos diferentes processos educativos.
A partir destes objetos selecionados como significativos nos cotidianos e histórias dos atores sociais envolvidos nos processos educativos, tendo-se como referenciais os pressupostos políticos e pedagógicos do educador Paulo Freire, professores, educadores, entre outros profissionais devem estimular, a partir do diálogo, da pergunta, da provocação, a apropriação destes objetos da cultura material, na mesma perspectiva do tema gerador, problematizações e indagações, que poderão possibilitar novas posições no mundo e a potencialização do campo da percepção diante dos objetos. Enfim, capazes de estimular aprendizados e problematizações a partir da cultura material em sua dimensão de experiência socialmente engendrada, que abarca múltiplas relações entre passado, presente e futuro (múltiplas temporalidades) e exercícios, que potencializam leituras de mundo, saberes e memórias, a partir de reflexões sobre as diferentes tramas entre sujeitos e objetos (RAMOS, 2004).
Desta forma, a noção de objeto gerador de Ramos (2008) apresenta interfaces com o pensamento do educador Paulo Freire, na medida em que este autor enfatiza uma dimensão ampla e crítica que enfatiza a importância da leitura dos objetos históricos e da cultura material. Questões estas, que se revelam fundamentais na potencialização das leituras de mundo e memórias dos educandos da EJA, tendo em vista perspectivas emancipatórias, que permitam aos sujeitos o reconhecimento enquanto atores sociais, produtores de cultura e história.
Podemos afirmar, diante de tudo o que foi acima mencionado, que a noção de objeto gerador de Ramos (2008), ao resgatar o importante legado deixado pelo educador Paulo Freire, apresenta potencialidades na reinvenção da pesquisa acadêmica e de seu cotidiano como lócus de recriação da cultura popular, por meio de movimentos e posturas fundamentais para o acolhimento da cultura e linguagem dos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, rompendo-se, dessa forma, com perspectivas etnocêntricas, que marginalizam e excluem esses atores sociais (PÉREZ, 2003). Pensando-se as escolas, museus e outros espaços educativos como espaços privilegiados de apropriação e produção de história, cultura, que sejam capazes de promover o reconhecimento das leituras de mundo, saberes e memórias de diferentes indivíduos e grupos sociais, como os educandos e educandas da Educação de Jovens e Adultos, tendo em vista a valorização do imenso legado deixado por Paulo Freire, retomado por Ramos (2008).
A noção de objeto gerador de Ramos (2008), inspirada no legado de Paulo Freire, deve desta forma servir de referência às práticas pedagógicas e currículos destinados aos educandos e educandas da EJA, que possibilitem contextos de humanização, emancipação, enraizamento e fortalecimento de identidades individuais e coletivas no universo desta modalidade educativa, para além dos estereótipos e estigmas comumente associados a estes atores sociais acima mencionados.
(1) Possui graduação em Física pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (1966), Mestrado em Educação pelo Instituto de Estudos Avançados em Educação da Fundação Getúlio Vargas (1985) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992). Atualmente é professor da Pós-graduação stricto sensu da Universidade do Estado de Minas Gerais. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, história da educação, formação de professores, ensino de matemática e educação de adultos.Endereço eletrônico: jpeixotofi@hotmail.com;
(2)Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da FAE/CBH/UEMG na Linha de Pesquisa Educação, Trabalho e formação humana. Atua principalmente nos seguintes temas: Memória; Meio Ambiente; Cultura popular, territórios; Saberes Tradicionais e processos educativos. Endereço eletrônico: carolzitacs@hotmail.com
REFERÊNCIAS: CAVACO, Carmen. Aprender Fora da Escola. Percursos de Formação Experiencial. Lisboa: Educa. 2002. CID LOPES, Paula da Silva Vidal. Imaginário Social e resgate da memória cultural e afetiva na comunidade de Rio das Pedras (Uma proposta para a Educação de Jovens e Adultos). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação, UFRJ, 2004. FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.80 p. _________. A Educação como prática da liberdade. 23ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. 130 p. PEIXOTO FILHO, J. P. A. Educação Básica de Jovens e Adultos: a trajetória da marginalidade. 1994. 300f. (Tese de Doutorado em Educação). Universidade Federal do Rio de Janeiro. UFRJ. PÉREZ, Carmen Lúcia Vidal. Professoras Alfabetizadoras. Histórias plurais, práticas singulares. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto: o museu no ensino de História. Chapecó: Argos, 2004.
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