Moacir Gadotti(*)
Escrevo sempre por uma necessidade interna de dizer alguma coisa, de responder a alguma pergunta, alguma preocupação ou a pedido de alunos e amigos. Este pequeno texto é resultado de uma preocupação: vejo hoje algumas teses freirianas sendo contestadas ou esquecidas, justamente um ano após ele ter sido escolhido como “patrono da educação brasileira”.
Duas categorias-chave do pensamento de Paulo Freire são “leitura do mundo” e “diálogo”, indispensáveis a todo e qualquer processo de planejamento educacional: sempre conhecer a realidade, de forma participativa e democrática, para então identificarmos as potencialidades, os problemas e os desafios que exigirão ações concretas, algumas pontuais, outras permanentes, resultantes de um planejar dialógico que nos exige pensar grande, promover o desejo de aprender, estimular a imaginação, formar melhor os professores, as professoras e assumir o ethos freiriano. Isso nunca estará superado.
Vivemos hoje numa sociedade de redes e de movimentos, uma sociedade de múltiplas oportunidades de aprendizagem, na qual as consequências para a escola, para o professor e para a educação em geral, são enormes. Torna-se fundamental aprender a pensar autonomamente, saber comunicar-se, saber pesquisar, saber fazer, ter raciocínio lógico, aprender a trabalhar colaborativamente, fazer sínteses e elaborações teóricas, saber organizar o próprio trabalho, ter disciplina, ser sujeito da construção do conhecimento, estar aberto a novas aprendizagens, conhecer as fontes de informação, saber articular o conhecimento científico com a prática e com outros saberes, o saber sensível, o saber técnico, o saber popular.
Nesse contexto de impregnação da informação, o professor é muito mais um mediador do conhecimento. Ele é um “problematizador”, na expressão de Paulo Freire. O aluno precisa construir e reconstruir o conhecimento a partir do que faz, revisitando permanentemente sua prática. Para isso, o professor também precisa ser curioso, buscar sentido para o que faz e apontar novos sentidos para o quefazer dos seus alunos. Ele deixará de ser um lecionador para ser um organizador do conhecimento e da aprendizagem. Ele fará a gestão do conhecimento utilizando o que as novas tecnologias lhe oferecem.
– Que ensinamentos Paulo Freire deixou para nós, professores?
– A formação do professor foi uma preocupação constante de Paulo Freire, manifestada em suas numerosas obras. Em seu livro Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar, ele reafirma a necessária profissionalização da docência contra a desvalorização dessa profissão. O sonho de mudança não se consolida nas sociedades sem a presença da professora. Num outro livro, Medo e ousadia: o cotidiano do professor, analisando a dialética entre utopia e cotidiano, entre o sonho e a realidade, Paulo Freire, em diálogo com o educador norte-americano Ira Shor a partir de suas experiências pessoais como docentes, comparam a situação vivida no Brasil e nos Estados Unidos, tendo como pano de fundo o sonho de uma educação libertadora. Aprender é ousar, é superar o medo. Nesse livro, os autores afirmam que a educação libertadora se constitui num estímulo para as pessoas se mobilizarem, se organizarem e se “empoderarem”. Ambos criticam o “currículo oficial”, pois entendem que ele se baseia na falta de confiança na capacidade dos estudantes e dos professores, negando-lhes o exercício da criatividade.
Foi sobretudo em seu último livro, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, que ele desenvolveu mais a sua concepção da formação da docência. Neste livro, ele nos fala de uma ética inseparável da estética. Na docência, ser e saber são indissociáveis. Nossa tradição clássica da educação evita conectar nossos afetos com a nossa razão. Paulo Freire, ao contrário, defendia uma “razão encharcada de emoção”. Insistia muito nesse ponto. A educação não deve ser um processo de formação de cidadãos úteis ao estado, ao mercado ou à sociedade. A educação responde pela criação da liberdade de cada ser, consciente, sensível, responsável, onde razão e emoção estão em equilíbrio e interação constante.
Todo conhecimento é sempre um conhecimento afetivo-congitivo. Não existe um conhecimento puramente afetivo ou puramente cognitivo. Quem produz conhecimento é um ser humano, um ser de racionalidade e de afetividade. Nenhuma dessas características é superior à outra. É sempre um sujeito que constrói categorias de pensamento através de suas experiências com o outro, num determinado contexto, num determinado momento. O aspecto afetivo, nesta construção, continua sempre. Uma razão onipotente gera uma escola burocrática e racionalista, incapaz de compreender o mundo da vida e o ser humano em sua totalidade. É uma escola dogmática e adormecida e não um organismo vivo. É preciso compreender os processos cognitivos como processos vitais na medida em que o intelecto e a sensibilidade são inseparáveis. A teoria do conhecido de Freire fundamenta-se numa antropologia, numa concepção de mundo e de ser humano inacabado, inconcluso, incompleto.
Em sua compreensão, o conhecimento é uma construção social, e não uma mera “aquisição”, “assimilação” de algo pré-existente ao sujeito que conhece. Não se trata de “transpor” o conhecimento de quem sabe para quem não sabe. Antes de conhecer o sujeito se “interessa por”, “é curioso de”… que ele chamava de “curiosidade epistemológica”. É essa curiosidade que o leva a apropriar-se do que a humanidade já produziu historicamente. Mas isso tudo precisa fazer sentido para ele.
Nessa concepção, o conhecimento tem uma função emancipatória: saber pensar por si mesmo, ser autor, sujeito, com autonomia, aprender para governar-se e governar, para ser soberano. A palavra “emancipar” vem de ex-manus ou de ex-mancipium. Ex (indica a ideia de “saída” ou de “retirada”) e manus (“mão”, simbolizando poder). Emancipar seria então “retirar a mão que agarra”, “libertar, abrir mão de poderes”, significa “pôr fora de tutela”. Ex-manus (fora-mão), significa “pôr fora do alcance da mão”. Emancipar-se é, então, dizer a quem nos oprime: “tire a sua mão de cima de mim!”.
Para Paulo Freire, mais importante do que saber como ensinar é saber como o aluno aprende. Paulo Freire construiu um método de conhecimento e não um método de ensino. Por isso criou, desde seus primeiros escritos, o neologismo “dodiscência”, docência+discência, para designar a relação dialógica entre o ato de ensinar e de aprender. Por isso ele substituiu as “aulas” pelos “círculos de cultura”.
- O que o professor precisa saber para ensinar?
- O professor precisa saber muitas coisas para ensinar. Mas, o mais importante não é o que é preciso saber para ensinar, mas, como devemos ser para ensinar. O essencial é não matar a criança que existe dentro de nós. Matá-la seria uma forma de matar o aluno que está à nossa frente. O aluno só aprenderá quando tiver um projeto de vida, quando desejar aprender, quando sentir prazer no que está aprendendo. O aluno quer saber, mas nem sempre quer aprender o que lhes é ensinado. O aluno precisa ser autor, ser rebelde, criador. E para isso o aprendiz, que também ensina, precisa ser respeitado em suas experiências culturais e em seus ritmos próprios de aprendizagem. Daí as propostas de regimes de ciclos, que não se confundem com aprovação automática nem com reprovações.
- O que é educar nessa ótica emancipadora?
- Educar e educar-se é sempre impregnar de sentido o que fazemos na vida cotidiana. É entender e transformar o mundo e a si mesmo. É compartilhar o mundo: compartilhar mais do que conhecimentos, ideias… compartilhar o coração. Numa sociedade violenta como a nossa, é preciso educar para o entendimento. Educar é também desequilibrar, duvidar, suspeitar, lutar, tomar partido, estar presente no mundo. Educar é posicionar-se, não se omitir. É conscientizar, desalienar, desfetichizar.
Educar é reproduzir ou transformar, repetir servilmente aquilo que foi, optar pela segurança do conformismo, pela fidelidade à tradição, ou, ao contrário, fazer frente à ordem estabelecida e correr o risco da aventura; querer que o passado configure todo o futuro ou partir dele para construir outra coisa. Por tudo isso, ser professor é um privilégio. Não podemos imaginar um futuro sem eles. É assim que entendo a preocupação de Paulo Freire em apontar os saberes necessários à prática educativa crítica. Ele sempre foi muito exigente em relação à formação desse profissional que considerava insubstituível. Por isso, acredito que o ethos freiriano poderá nos ajudar a encontrar a educação que precisamos ter para construir o país que queremos.
(*)Moacir Gadotti é Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, Doutor Honoris Causa pela Universidade Rural do Rio de Janeiro, Livre Docente pela Universidade Estadual de Campinas, Professor Titular da Universidade de São Paulo, Fundador e atual Presidente de Honra do Instituto Paulo Freire. É autor de diversos livros, traduzidos em vários idiomas, entre eles: Pedagogia da práxis (1996); História das ideias pedagógicas (1998); Paulo Freire: Uma biobibliografia (2001); Pedagogia da Terra (2002); Perspectivas atuais da educação (2003); Os mestres de Rousseau (2004), Educar para um outro mundo possível (2006) e Educar para a sustentabilidade (2008).
Referências bibliográficas
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São |Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo, Olho D’Água, 1993.
_____ & SHOR, Ira. Medo e ousadia: cotidiano do professor. 5a edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. São Paulo, Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2008 (Educação Cidadã; 2).
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